
Energia solar totalmente brasileira
Fonte: O Estado de São Paulo - 05.06.2009
Rio Grande do Sul - Células solares desenvolvidas por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) obtiveram 15,4% de eficiência, acima da média mundial, que é de 14%. São as primeiras fabricadas com tecnologia 100% nacional e abrem caminho para a instalação da primeira fábrica de módulos fotovoltaicos (que transformam o calor do sol em energia elétrica) com tecnologia brasileira, o que deverá ocorrer no segundo semestre.
O projeto de pesquisa que resultou na tecnologia está sendo desenvolvido desde 2005 no Núcleo Tecnológico de Energia Solar (NT-Solar), da Faculdade de Física da PUC-RS, sede do Centro Brasileiro para Desenvolvimento da Energia Solar Fotovoltaica (CB-Solar). "A medição foi feita em um laboratório na Alemanha. Precisamos terminar os cálculos de custo e elaborar um plano de negócios", diz a coordenadora do trabalho, Izete Zanesco, que divide a função com Adriano Moehlecke.
Investidores Com o plano pronto, Izete diz que vai buscar investidores interessados na instalação de uma linha industrial. Os estudos do CB-Solar resultaram em duas células, uma de alta eficiência e custo maior - a que ficou acima da média mundial e outra mais barata, porém com eficiência menor, de 13%. "Precisamos avaliar o custo/benefício e comparar uma com a outra", explica. A eficiência máxima no mundo é de 16%.
O investimento necessário para construção da fábrica, pioneira no país, está estimado em R$ 50 milhões, para uma planta com capacidade de produzir 10 MW/ano. "O ideal é começar com 20 a 25 MW/ano, mas vamos começar devagar, para ampliar depois." O projeto já tem uma planta-piloto, que fabrica os módulos fotovoltaicos desde 2005. "Vamos terminar o projeto no fim de agosto, com a produção de 200 módulos fabricados na planta-piloto", conta.
A partir daí, já com o plano de negócios pronto, os pesquisadores passam a buscar novos parceiros. Os 200 módulos fabricados na planta-piloto serão entregues para as empresas parceiras do grupo nessa primeira fase da pesquisa da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), Eletrosul e Petrobras. "Essas empresas deverão instalar os módulos em locais de grande visibilidade, fazê-los funcionar e divulgar a tecnologia", diz.
O projeto foi idealizado no Ministério da Ciência e Tecnologia e custeado pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), que estabeleceu os convênios com empresas parceiras. Foram investidos R$ 6,8 milhões. Lâminas de silício As duas tecnologias de produção dos módulos usam lâminas de silício para a fabricação das células, matéria-prima utilizada em 90% das células fabricadas no mundo. Izete prevê que o custo final de produção, mesmo da célula de alta eficiência, ficará ao menos dentro da média mundial. "Temos um protocolo que determina o uso de materiais de baixo custo. Esse é o diferencial do nosso projeto." No módulo de menor eficiência, o custo deverá baixar 15%. Izete diz que o custo diminui conforme aumenta a potência produzida.
O objetivo inicial da pesquisa foi desenvolver tecnologia industrial para beneficiar tanto a população urbana, em sistemas conectados à rede, quanto a rural, não atendida por sistemas de distribuição de energia. O uso de energia solar fotovoltaica no mundo avança rapidamente, principalmente nos países desenvolvidos, onde há fortes incentivos financeiros, tanto para a instalação de sistemas fotovoltaicos quanto para pesquisa e divulgação. Desde 2003 a indústria de módulos fotovoltaicos cresce a taxas entre 40% e 69% ao ano, sendo a forma de produção de energia elétrica que mais cresce no mundo. Em 2007 a produção mundial foi de 4.279 MW em módulos fotovoltaicos, equivalente a um terço da potência de Itaipu, a maior usina hidrelétrica brasileira. Em 2008, a produção cresceu 85%.
Um mercado de grande futuro
O diretor-executivo do Instituto Ekos, Délcio Rodrigues, diz que o desenvolvimento de uma tecnologia nacional e competitiva para a produção de módulos solares pode ajudar o Brasil a se posicionar melhor em um mercado de grande futuro. "Atualmente não temos nenhuma fábrica produzindo essas células aqui, mesmo que com tecnologia importada. Tudo do setor vem de fora", diz. Ele conta que, com os avanços mundiais, o custo da energia fotovoltaica será competitivo em cinco ou, no máximo, 10 anos. "Seremos apenas compradores se não houver tecnologia nacional."
A adoção da energia solar no Brasil esbarra na matriz energética, baseada nas hidrelétricas e, portanto, com custo baixo. Esse cenário poderá mudar, primeiro com a redução do custo, que segue acelerada no mundo, e também a partir de uma iniciativa do Congresso, onde uma comissão especial estuda as fontes de energias alternativas. "A comissão está reunindo e estudando todos os projetos que tratam do assunto e, entre eles, existe um que permite ao consumidor vender a energia fotovoltaica excedente à concessionária local", conta Rodrigues. A decisão da comissão não passa por votação no Congresso Nacional, sendo enviada diretamente para sanção do presidente. "Os trabalhos devem levar pelo menos 1 ano, mas há grandes chances de darem certo", avalia a pesquisadora Izete Zanesco, do CB-Solar, da PUC-RS. Na Alemanha, legislação semelhante provocou um boom de instalações de sistemas fotovoltaicos.
Eng. Me. Márcio Venício Pilar Alcântara
marciovenicio@gmail.com
www.enerfi.com
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